Heidegger deixou os rastros
de que “Jamais e em nenhuma língua o pronunciado é o dito.” (HEIDEGGER, 1969,
p. 44). O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de
Léo Mackellene, trata exatamente desse artifício de amontoar palavras para o
estratagema do que mais se aproximaria da verdade: “Só alcançamos as palavras.
E as palavras são sombras. A verdade é uma floresta nebulosa, porque a verdade
não é a verdade, são palavras. Assim, reinventar o mundo, meu caro poeta, é
ressignificar as palavras.” (p.9).
O livro passeia pela mata
espessa, entre as emboscadas, com a opacidade de quem cose para dentro, interceptando
o que é brilhante. Em súplica de franca natureza, o verso responde que “O mundo
inteiro estremece no punho” (p.10) e denuncia o poeta como o responsável pelas
mazelas de tudo, haja vista que “O mundo inteiro é culpa de quem imagina/ não
de quem vive” (p.11).
A trama dessa obra está
aquém e abaixo da forma e das fôrmas, no cultivo em perfil denso de nascimentos.
O trabalho dO livro das sombras tem a gravidade e gravidez dos signos em
inauguração.
Gota
abre-se
silêncio
interpelado chão
avança
furiosa
penetrando a terra
vai rasgando o chão
Beleza que não cabe
se rebela
trêmula enfurecida
(subterrâneas marés)
A vida fervilha em seiva.
Uma flor borbulha
pétalas.
Ouve a respiração
ofegante das folhas
donde soa
em ebulição
o silêncio.
- Um cardume de mãos
Invisíveis
se move dia e noite
semeando suas sementes.
(p.16).
Assim Léo
arquiteta um livro-casa que abriga as correntes do inconsciente pessoal, das
profundidades que reinventam o mundo, onde se encontram as ligações que fazem
parte das raízes de tudo o que se é e do que se manifesta. Entretanto, seu
trajeto é reverso; o caminho é todo árvore em sussurro. Este “é o destino dos homens// (Raízes nos habitam)” (p.18). Mais que a coisa,
busca-se sua sombra.
No
poema “O caminho das árvores”, percebe-se a bela metáfora da mulher-árvore.
Toda feminilidade é alcançada em versos de uma sensualidade rica e apurada.
Avança lenta e cautelosa
sob o peso de seus galhos e seus
ramos
vestida de flores e sua pele de
folhas.
Avança pela intimidade dos caminhos.
Anda com a certeza de que ama
Sorrio.
E olho pra ela com um sorriso frouxo
nos lábios
que ela percebe
e desvia o olhar.
Eu rio de pender a cabeça para trás.
Ela percebe?
Percebe! Percebe!
É bonita demais pra não perceber
insinuações.
Para mulheres assim,
o mundo é inteiro uma insinuação.
(pp.18-9).
Assim
que a trilha à leitura dO livro das sombras vai sendo inventada em plena
desarmonia da natureza pa[lavrada]: “a mulher é uma árvore que renasce.// A
verdade não é o que existe,/ é o que a gente deixa existir.” (p.19). Na mesma
medida, a concepção das novas verdades e dos significados estão em gestação,
arvoradas de sentidos a serem inaugurados. Fetos afetados no útero do universo.
As mulheres carregam sementes no
ventre.
Vem das suas certezas
a altivez com que me aplaca o juízo.
E da alma inquebrantável de verdades
a completude com que me atrai os
sentidos.
Ela traz a segurança das mulheres
grávidas
das mulheres prenhes da verdade.
A verdade
o estágio mais alto de toda beleza.
(p.19).
As raízes de uma árvore não
são fáceis de perceber; contudo, são imperativas à sobrevivência da mesma.
Também essa é a proposta dos pequenos silêncios de Léo Mackellene, em
sua obra que prepara um terreno abrigado da palavra.
Em “O jardim das horas”,
Dois deuses acima de nós
disputam o controle de nossos atos
o destino
e o acaso. (p.29)
o que se
percebe é a ida ao encontro do silêncio ao desvendamento do que ainda não foi
re-velado. O oculto das coisas está nessa sacralidade silenciosa que é a
verdade. A des-coberta acontece em sigilo; é na refração que se pode alcançar.
Ler...
É uma árvore que
desperta,
respira profundamente e
se ergue.
Deixa que a palavra te
leve,
que ela é um barco que
navega sem leme. (p.32).
O silêncio esculpe a
palavra; o auge do silêncio é a transcendência do tempo: “Pois entra e senta/
que o mundo é secular e ele pesa./ Diz como quem tem fome./ Pára...” (p.33).
Fabulando as significações é que as palavras excursionam “O jardim silenciado”,
atuando em processo metafísico, com a ciência de serem reflexo.
Eu sou o último galho
o que sobrou...
e aqui estou
sob a sombra dessas
árvores e dessas plantas
entre as dobras dessas
páginas brancas,
vivendo secretamente em
ti. (p.46).
Aqui se dá o esfacelamento
do ser, enfraquecido de saber-se perecível. Vestígio humilde de certificar-se
abaixo da sombra das palavras que não alcançam a verdade, mas, incansavelmente,
procuram-na: “Aqui,/ um segundo/ é a eternidade doendo.” (p.47).
Nesse sentido, edifica-se
“O caminho dos homens” que se concentra nessa peregrinação de ressignificações.
A estrada estará sempre
em construção.
Interminável.
Com suas distâncias
invencíveis,
seu cortejo de nuvens
eternas...cantando.
nem chuva, nem chão.
Cada palavra é uma
pegada.
Cada poema, um rastro.
(p.48).
O poema que encerra O
livro das sombras é “O quintal dos dias”, o terreno atrás da casa-livro, em
que se operam as oportunidades da linguagem. Léo novamente transubstancia o
indivíduo, agora fundindo à árvore a sabedoria humana.
Gigantes sábios e
benevolentes
retiraram-se dos campos
- onde havia gente -
E embrenharam-se na
floresta,
Transformados também em
árvores. (p.50).
Descarnando-se, ou seja,
fugindo da solidez do que já está posto, a obra sugere uma reflexão, uma compreensão
que se dá além das palavras, em sua virtualidade: “O fruto é uma revolução silenciosa.”
(p.50).
Léo Mackellene empenhou-se
com uma destreza assombrosa sobre o que se passa através dO livro das
sombras, em confecção íntima e precisa de uma textura sobre a matriz da
palavra – o silêncio –, alcançando o que se pretendeu ou se pressentiu construir
no enovelado e nodoso versejar grávido de sentidos.