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Resenha dO livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios de Léo Mackellene

Beatriz Bajo
05/09/2007

Heidegger deixou os rastros de que “Jamais e em nenhuma língua o pronunciado é o dito.” (HEIDEGGER, 1969, p. 44). O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de Léo Mackellene, trata exatamente desse artifício de amontoar palavras para o estratagema do que mais se aproximaria da verdade: “Só alcançamos as palavras. E as palavras são sombras. A verdade é uma floresta nebulosa, porque a verdade não é a verdade, são palavras. Assim, reinventar o mundo, meu caro poeta, é ressignificar as palavras.” (p.9).

O livro passeia pela mata espessa, entre as emboscadas, com a opacidade de quem cose para dentro, interceptando o que é brilhante. Em súplica de franca natureza, o verso responde que “O mundo inteiro estremece no punho” (p.10) e denuncia o poeta como o responsável pelas mazelas de tudo, haja vista que “O mundo inteiro é culpa de quem imagina/ não de quem vive” (p.11).

A trama dessa obra está aquém e abaixo da forma e das fôrmas, no cultivo em perfil denso de nascimentos. O trabalho dO livro das sombras tem a gravidade e gravidez dos signos em inauguração.

Gota

abre-se

silêncio

interpelado chão

avança

furiosa

penetrando a terra

vai rasgando o chão

 

Beleza que não cabe

se rebela

trêmula enfurecida

(subterrâneas marés)

 

A vida fervilha em seiva.

Uma flor borbulha pétalas.

 

Ouve a respiração ofegante das folhas

donde soa

em ebulição

o silêncio.

 

- Um cardume de mãos

Invisíveis

se move dia e noite

semeando suas sementes. (p.16).

 

Assim Léo arquiteta um livro-casa que abriga as correntes do inconsciente pessoal, das profundidades que reinventam o mundo, onde se encontram as ligações que fazem parte das raízes de tudo o que se é e do que se manifesta. Entretanto, seu trajeto é reverso; o caminho é todo árvore em sussurro. Este “é o destino dos homens// (Raízes nos habitam)” (p.18). Mais que a coisa, busca-se sua sombra.

No poema “O caminho das árvores”, percebe-se a bela metáfora da mulher-árvore. Toda feminilidade é alcançada em versos de uma sensualidade rica e apurada.

 

Avança lenta e cautelosa

sob o peso de seus galhos e seus ramos

vestida de flores e sua pele de folhas.

Avança pela intimidade dos caminhos.

Anda com a certeza de que ama

Sorrio.

E olho pra ela com um sorriso frouxo nos lábios

que ela percebe

e desvia o olhar.

Eu rio de pender a cabeça para trás.

Ela percebe?

Percebe! Percebe!

É bonita demais pra não perceber insinuações.

Para mulheres assim,

o mundo é inteiro uma insinuação. (pp.18-9).

 

Assim que a trilha à leitura dO livro das sombras vai sendo inventada em plena desarmonia da natureza pa[lavrada]: “a mulher é uma árvore que renasce.// A verdade não é o que existe,/ é o que a gente deixa existir.” (p.19). Na mesma medida, a concepção das novas verdades e dos significados estão em gestação, arvoradas de sentidos a serem inaugurados. Fetos afetados no útero do universo.

 

As mulheres carregam sementes no ventre.

Vem das suas certezas

a altivez com que me aplaca o juízo.

E da alma inquebrantável de verdades

a completude com que me atrai os sentidos.

 

Ela traz a segurança das mulheres grávidas

das mulheres prenhes da verdade.

A verdade

o estágio mais alto de toda beleza. (p.19).

 

As raízes de uma árvore não são fáceis de perceber; contudo, são imperativas à sobrevivência da mesma. Também essa é a proposta dos pequenos silêncios de Léo Mackellene, em sua obra que prepara um terreno abrigado da palavra.

Em “O jardim das horas”,

 

Dois deuses acima de nós

disputam o controle de nossos atos

o destino

e o acaso. (p.29)

 

o que se percebe é a ida ao encontro do silêncio ao desvendamento do que ainda não foi re-velado. O oculto das coisas está nessa sacralidade silenciosa que é a verdade. A des-coberta acontece em sigilo; é na refração que se pode alcançar.

 

Ler...

É uma árvore que desperta,

respira profundamente e se ergue.

 

Deixa que a palavra te leve,

que ela é um barco que navega sem leme. (p.32).

 

O silêncio esculpe a palavra; o auge do silêncio é a transcendência do tempo: “Pois entra e senta/ que o mundo é secular e ele pesa./ Diz como quem tem fome./ Pára...” (p.33). Fabulando as significações é que as palavras excursionam “O jardim silenciado”, atuando em processo metafísico, com a ciência de serem reflexo.

 

Eu sou o último galho

o que sobrou...

e aqui estou

sob a sombra dessas árvores e dessas plantas

entre as dobras dessas páginas brancas,

vivendo secretamente em ti. (p.46).

 

Aqui se dá o esfacelamento do ser, enfraquecido de saber-se perecível. Vestígio humilde de certificar-se abaixo da sombra das palavras que não alcançam a verdade, mas, incansavelmente, procuram-na: “Aqui,/ um segundo/ é a eternidade doendo.” (p.47).

Nesse sentido, edifica-se “O caminho dos homens” que se concentra nessa peregrinação de ressignificações.

 

A estrada estará sempre em construção.

Interminável.

Com suas distâncias invencíveis,

seu cortejo de nuvens eternas...cantando.

nem chuva, nem chão.

Cada palavra é uma pegada.

Cada poema, um rastro. (p.48).

 

O poema que encerra O livro das sombras é “O quintal dos dias”, o terreno atrás da casa-livro, em que se operam as oportunidades da linguagem. Léo novamente transubstancia o indivíduo, agora fundindo à árvore a sabedoria humana.

 

Gigantes sábios e benevolentes

retiraram-se dos campos

- onde havia gente -

E embrenharam-se na floresta,

Transformados também em árvores. (p.50).

 

Descarnando-se, ou seja, fugindo da solidez do que já está posto, a obra sugere uma reflexão, uma compreensão que se dá além das palavras, em sua virtualidade: “O fruto é uma revolução silenciosa.” (p.50).

Léo Mackellene empenhou-se com uma destreza assombrosa sobre o que se passa através dO livro das sombras, em confecção íntima e precisa de uma textura sobre a matriz da palavra – o silêncio –, alcançando o que se pretendeu ou se pressentiu construir no enovelado e nodoso versejar grávido de sentidos.

 


Comentários

edson cruz :
maravilha de resenha. vou correr ao livro e lê-lo, antes q me arrependa. abraço, edson cruz
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Beatriz Bajo :
humm...obrigada!! hehe!! eu te falei, né? um silêncio que reverbera! outro, B.B.
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Samantha Abreu (http://samanthaabreu.blogpost.com) :
Que lindo, Bia! fiquei louca pra ler e saber mais.
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Beatriz Bajo :
...em frente à tua casa...o livro está inteiro!! huashuashuas!!!
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