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AURORA: o DVD mais importante do ano

Vlademir Lazo Corrêa
20/12/2007

O ano de 2007 está terminando, e dá para considerar como razoável o saldo de lançamentos de DVDS de clássicos e demais filmes antigos no Brasil. Digo razoável porque é desalentador verificar a quantidade absurda de obras-primas que já foram lançadas em DVD no exterior, mas que, infelizmente, ainda não estão disponíveis nas distribuidoras brasileiras (uma solução para esse impasse, é recorrer às compras por importação, o que também não está ao alcance de todo mundo, até mesmo porque raramente o filme lá fora vem acompanhado de legendas em português). Ainda assim, mesmo com o desinteresse de nossas distribuidoras em lançar muitos títulos essenciais e a chegada de novos formatos digitais (o HD DVD e o Blue Ray), dá para considerar compensadora a chegada muitos filmes importantes no Brasil em 2007. E pode-se dizer que, desses últimos doze meses, os melhores DVDS lançado no Brasil foram o box triplo de Blade Runner (leia a crítica) e a edição especial do clássico Aurora (1927), de Friedrick Wilhelm Murnau, um dos mestres do Expressionismo alemão.

O expressionismo alemão foi a primeira grande corrente artística da história do cinema. David W. Griffith já havia definido os principais elementos da linguagem cinematográfica e Charles Chaplin tornou-se depois disso um enorme sucesso popular, mas coube aos alemães organizarem o movimento que assombraria o mundo na década de 20 com suas perspectivas tortas, atmosferas carregadas, personagens atormentados e fotografias em fortíssimo preto-e-branco cheias de sombras e de nuances. O marco inicial seria O Gabinete do Dr. Caligari (1919), de Robert Wiene, com o primeiro personagem trágico criado exclusivamente pelo cinema, um filme que surpreende ainda hoje pela criativa utilização da cenografia, que praticamente interage com os personagens, e a brilhante iluminação, elementos que criam um fascinante clima de surrealismo e horror. Essa obra-prima seria superada três anos depois por um outro clássico, Nosferatu, a primeira grande contribuição de F.W. Murnau para o cinema e que ainda hoje permanece como o melhor filme de terror de todos os tempos, com seu visual sombrio cheio de sombras, cenários góticos e uma poesia trágica envolvendo os personagens, cuja caracterização de Max Schereck ainda é insuperável em se tratando de figuras de vampiros.

Mais tarde, Murnau atingiria outros cumes da arte cinematográfica com A Última Gargalhada (1924), sobre a glória e a vaidade de um porteiro orgulhoso de seu uniforme bastante vistoso e sua posterior decadência. Um dos maiores triunfos do cinema mudo, quase sem letreiros explicativos, por recorrer a uma das mais intensas movimentações de câmera e um uso muito bem elaborado do foco, da luz e da montagem inventiva e com a maciça interpretação do ator Emil Jannings, cuja atuação respondia melhor do que qualquer eventual legenda. Os filmes seguintes de Murnau, Tartufo (1925) e Fausto (1926), confirmaram a grandeza de seu talento e comprovaram que a Alemanha estava pequena demais para ele, sobretudo por Fausto, com sua espantosa sinfonia técnica e uns efeitos (Fausto e Satã desaparecendo nos ares por cima da cidade, o circulo de fogo) de cair o queixo.

Depois de Fausto, Murnau abandonou a Alemanha e partiu para a América. Os Estados Unidos, atentos ao florescimento do cinema germânico, importaram um grande número de realizadores, atores e técnicos alemães. Murnau não poderia ter começado melhor em Hollywood, quando dirigiu pela primeira vez em solo americano (com rara e total liberdade de criação) o mais belo de todos os seus filmes, Aurora (1927), que disputa com Nosferatu a glória de ser a melhor obra de seu diretor. O filme era uma adaptação, feita pelo roteirista Carl Mayer (também um dos mais importantes do expressionismo alemão), de um romance de Hermann Sudermann, que se transformou nas mãos de Murnau numa história de amor e redenção das mais fortes. Um fazendeiro simplório (George O’Brien) envolve-se com uma linda mulher da cidade (Margareth Livingston), que representa tudo o que ele nunca possuiu na vida: agitação urbana, mundana e frívola, em contraponto à sua existência monótona, caseira e rudimentar na casa de campo em que vivia com sua esposa (Janet Gaynor). É importante lembrar que o inicio do século XX (em que transcorre a história) marcou o surgimento da era moderna com a crescente migração das pessoas do mundo rural para as cidades, o fascínio pelos frutos da revolução industrial e o inicio da revolução tecnológica, cinema, poluição, barulho, teatro de vaudeville, etc. Era um novo mundo surgindo, em substituição a um mundo antigo condenado a se tornar cada vez mais obsoleto. E esse modo de vida que estava por se perder era representado no filme pela rotina do fazendeiro no campo, ao lado de sua fiel esposa, de feições e modos também humildes.

O que era para ser apenas uma relação fortuita e passageira entre o marido e a amante se transforma num desejo de paixão mais duradoura de ambas as partes. O deslumbramento do amor (ou do que acreditavam ser amor), os desejos carnais, o prazer de estar um com o outro fazem com que os amantes não enxerguem as diferenças que há em suas vidas e a impossibilidade de juntá-las. Eles não pertencem ao mesmo mundo e a vontade de unir um mundo ao outro é um erro dos mais extravagantes. Os dois decidem fugir, sendo preciso, para isso, assassinar a esposa do fazendeiro. Já na cena de abertura, no pântano, quando os dois se encontram para tramar o homicídio, o protagonista atravessa o lamaçal entre névoas e brumas decidido a assassinar a esposa, como quem sai do plano real para ingressar num mundo difuso, numa das cenas que também é um dos tantos exemplos da extraordinária maestria dos movimentos de câmera do filme. Aliás, durante o filme inteiro as imagens nos dão a impressão de que tudo nos é mostrado com uma câmera meio que flutuante, diria quase sobrenatural. Um outro grande momento é quando o homem beija e mergulha em carícias com a mulher da cidade enquanto a cena é intercalada com imagens da esposa chorando ao lado do filho.

Cabe ao desenrolar dos acontecimentos devolver ao protagonista as noções de vida real que havia perdido. Ao se afastar da amante para voltar a sua esposa para matá-la, ele ao reencontrá-la adquire, subitamente, uma tomada de consciência, um sentimento de pena pela mulher que ele julgava não amar mais. A possibilidade de perder sua companheira faz com que ele reflita sobre abrir mão da solidez de sua existência para embarcar numa experiência que, no final das contas, poderia ser das mais efêmeras. Não vale a pena sacrificar a mulher com quem sempre viveu, e mais ainda, a vida que lhe era conhecida, na incerteza de reescrever o seu destino. Mais sendo levado pelo que planejara do que propriamente pelo que desejava nesse instante, ele tenta assassiná-la, mas não consegue. A esposa indignada, reconhecendo no homem a sua frente (não o antigo marido, mas um estranho) quer sair dali e decide ir até a cidade. Desejando reconquista-la e completamente arrependido pelo que tramara, ele a acompanha. A viagem de bonde que leva o casal do campo para a cidade é outro arroubo técnico fabuloso. Com o uso de fusões e sobreposições para descrever as mudanças das paisagens exteriores, nos permitem enxergar a cidade com os olhos do casal, tudo nos parecendo tão grande e novo como o era para eles. As preocupações de Murnau com as qualidades técnicas fizeram com que ele alcançasse resultados muito próximos da perfeição. O restante da história é sobre a tentativa do marido em se reconciliar definitivamente com a esposa, e mais do que isso, reencontrar sua identidade perdida, o homem que deixara de ser por causa dos devaneios e ilusões de uma paixão fugaz e inconseqüente.

François Truffaut dizia que esse é o filme mais belo do mundo e que ninguém poderia pensar em ser cineasta sem assisti-lo antes. Murnau pretendeu fazer desse filme uma espécie de canção, daí o subtítulo original de “A Song Of Two Humans”. A propósito, feito nos últimos suspiros do cinema mudo, Aurora utiliza um sistema de sonorização chamado Movietone, no qual o som era gravado diretamente no negativo. Com isso, o filme não precisava ter acompanhamento musical ao vivo. Aurora estreou semanas antes do primeiro filme falado, O Cantor de Jazz (que utilizava o processo Vitaphone, onde o som era gravado em enormes discos de cera), mas se reparamos na cena em que os protagonistas estão obstruindo a rua ao se beijarem, além de escutar efeitos sonoros de praxe, você poderá escutar, o que poderá ser considerado umas das primeiras palavras faladas no cinema ("Get out of There ou Get out of Way").

O DVD lançado por aqui pela distribuidora Versátil está muito bom. O filme tem granulações e defeitos aparentes no negativo, mas isso é compreensível por se tratar de um filme com oitenta anos. Ainda assim, o trabalho de restauração das imagens foi fantástico. O áudio está muito bom e claro, a transferência do DVD respeitou o formato original de cinema e não existem artefatos de compressão visíveis. Como extras, existe uma coleção de cenas alternativas, que haviam sido guardadas pelo editor do filme (Harold D. Schuster) e no início de cada cena tem um entretítulo que informa alguns curiosidades da cena e da produção. O DVD também dispõe de fotos dos bastidores e um curioso trailer original de cinema, e como é comum na maioria dos títulos lançados pela Versátil, a vida e obra do diretor em forma de texto. A lamentar o fato de que a edição nacional cortou alguns extras da edição americana, como o filme perdido de Murnau , Four Devils, o roteiro de Aurora e Four Devils e os comentários em áudio. Uma pena, mas o DVD está tão bom que a gente até releva.

Depois de Aurora, Murnau não teve mais a mesma carta branca nos estúdios e teve que ceder às pressões comerciais e realizar duas obras comerciais que lhe foram impostas: o já citado Four Devils e City Girl. Para fugir de Hollywood, Murnau foi para o Taiti com o grande documentarista Robert Flaherty (Nanook, Man of Aran) para produzir e realizar Taboo. Os dois acabariam se desentendendo depois de três dias de filmagens e, sozinho, Murnau fez a sua obra-prima derradeira. Isso porque três dias antes da premiére do filme, ele morreu em um desastre de automóvel. Na época se falou em uma maldição do sacerdote do Taiti, contrariado com certas cenas. Murnau tinha apenas quarenta e dois anos. Morria consagrado como o maior cineasta do seu tempo, ao lado de Charles Chaplin e Sergei Eisenstein.


Comentários

Roberto Souza :
Um texto belíssimo, que faz justiça a um dos mais extraordinários filmes da história do cinema. Uma análise precisa e minuciosa desse monumento visual construído sobre poesia e selvageria, constituindo uma ótima introdução aos que não viram o filme e o complemento adequado aos que já tiveram tal prazer. Parabéns, Vlademir!
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Beatriz Bajo :
Sim...volto a concordar com Roberto. Está certeiramente maravilhosa a coluna, Vlad. Que lindo é poder ler textos com essa qualidade e paixão evidentes, transbordando pelas tuas palavras. si si...parabéns!
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leandro moraes :
ainda não li o texto totalmente (até aonde eu li está ótimo), mas somente pela publicação da última foto já vale ficar por aqui por 30 minutos. Que imagem linda.
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Pedro Moraes :
Saudações Vlademir, Texto muito bem feito, estou realizando uma monografia para conclusão de uma pós analisando o filme Nosferatu. Será que você pode me ajudar com uma informação? Você sabe alguma informação sobre a trilha original do filme? qualquer coisa será últil. Abraço, Pedro Moraes peumoraes@yahoo.com.br 71 9953-5716
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ROBERTO GARCIA MORRONE :
Adorei o texto também. Ainda não assisti a essa maravilha de Murnau, embora conheça vários de seus filmes. Depois desse texto vou comprar mais essa maravilha. Parabéns Vlademir L. Corrêa. Tive acesso a esse texto graças à comunidade do Orkut, "Silent Era Film / Cinema Mudo". Abraços a todos fãs dessas obras-primas dos primórdios do cinema!
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Vagner Bozz :
Parabéns pelo texto! Todos os filmes de Murnau são acima da média, mas Aurora é realmente espetacular. Tudo isso está sendo lançado em dvd, porém as videolocadoras e grande parte do público não valorizam simplesmente por ser antigo. É uma pena...
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