O ano de 2007 está terminando, e dá
para considerar como razoável o saldo de lançamentos
de DVDS de clássicos e demais filmes antigos no Brasil. Digo
razoável porque é desalentador verificar a quantidade
absurda de obras-primas que já foram lançadas em DVD
no exterior, mas que, infelizmente, ainda não estão
disponíveis nas distribuidoras brasileiras (uma solução
para esse impasse, é recorrer às compras por importação,
o que também não está ao alcance de todo mundo,
até mesmo porque raramente o filme lá fora vem acompanhado
de legendas em português). Ainda assim, mesmo com o desinteresse
de nossas distribuidoras em lançar muitos títulos essenciais
e a chegada de novos formatos digitais (o HD DVD e o Blue Ray), dá
para considerar compensadora a chegada muitos filmes importantes no
Brasil em 2007. E pode-se dizer que, desses últimos doze meses,
os melhores DVDS lançado no Brasil foram o box triplo de Blade
Runner (leia a crítica) e a edição especial
do clássico Aurora (1927), de Friedrick Wilhelm
Murnau, um dos mestres do Expressionismo alemão.
O expressionismo alemão foi a primeira grande
corrente artística da história do cinema. David W. Griffith
já havia definido os principais elementos da linguagem cinematográfica
e Charles Chaplin tornou-se depois disso um enorme sucesso popular,
mas coube aos alemães organizarem o movimento que assombraria
o mundo na década de 20 com suas perspectivas tortas, atmosferas
carregadas, personagens atormentados e fotografias em fortíssimo
preto-e-branco cheias de sombras e de nuances. O marco inicial seria
O Gabinete do Dr. Caligari (1919), de Robert Wiene,
com o primeiro personagem trágico criado exclusivamente pelo
cinema, um filme que surpreende ainda hoje pela criativa utilização
da cenografia, que praticamente interage com os personagens, e a brilhante
iluminação, elementos que criam um fascinante clima
de surrealismo e horror. Essa obra-prima seria superada três
anos depois por um outro clássico, Nosferatu,
a primeira grande contribuição de F.W. Murnau para o
cinema e que ainda hoje permanece como o melhor filme de terror de
todos os tempos, com seu visual sombrio cheio de sombras, cenários
góticos e uma poesia trágica envolvendo os personagens,
cuja caracterização de Max Schereck ainda é insuperável
em se tratando de figuras de vampiros.
Mais tarde, Murnau atingiria outros cumes da arte
cinematográfica com A Última Gargalhada
(1924), sobre a glória e a vaidade de um porteiro orgulhoso
de seu uniforme bastante vistoso e sua posterior decadência.
Um dos maiores triunfos do cinema mudo, quase sem letreiros explicativos,
por recorrer a uma das mais intensas movimentações de
câmera e um uso muito bem elaborado do foco, da luz e da montagem
inventiva e com a maciça interpretação do ator
Emil Jannings, cuja atuação respondia melhor do que
qualquer eventual legenda. Os filmes seguintes de Murnau, Tartufo
(1925) e Fausto (1926), confirmaram a grandeza de
seu talento e comprovaram que a Alemanha estava pequena demais para
ele, sobretudo por Fausto, com sua espantosa sinfonia técnica
e uns efeitos (Fausto e Satã desaparecendo nos ares por cima
da cidade, o circulo de fogo) de cair o queixo.
Depois de Fausto, Murnau abandonou
a Alemanha e partiu para a América. Os Estados Unidos, atentos
ao florescimento do cinema germânico, importaram um grande número
de realizadores, atores e técnicos alemães. Murnau não
poderia ter começado melhor em Hollywood, quando dirigiu pela
primeira vez em solo americano (com rara e total liberdade de criação)
o mais belo de todos os seus filmes, Aurora (1927),
que disputa com Nosferatu a glória de ser
a melhor obra de seu diretor. O filme era uma adaptação,
feita pelo roteirista Carl Mayer (também um dos mais importantes
do expressionismo alemão), de um romance de Hermann Sudermann,
que se transformou nas mãos de Murnau numa história
de amor e redenção das mais fortes. Um fazendeiro simplório
(George O’Brien) envolve-se com uma linda mulher da cidade (Margareth
Livingston), que representa tudo o que ele nunca possuiu na vida:
agitação urbana, mundana e frívola, em contraponto
à sua existência monótona, caseira e rudimentar
na casa de campo em que vivia com sua esposa (Janet Gaynor). É
importante lembrar que o inicio do século XX (em que transcorre
a história) marcou o surgimento da era moderna com a crescente
migração das pessoas do mundo rural para as cidades,
o fascínio pelos frutos da revolução industrial
e o inicio da revolução tecnológica, cinema,
poluição, barulho, teatro de vaudeville, etc. Era um
novo mundo surgindo, em substituição a um mundo antigo
condenado a se tornar cada vez mais obsoleto. E esse modo de vida
que estava por se perder era representado no filme pela rotina do
fazendeiro no campo, ao lado de sua fiel esposa, de feições
e modos também humildes.
O que era para ser apenas uma relação
fortuita e passageira entre o marido e a amante se transforma num
desejo de paixão mais duradoura de ambas as partes. O deslumbramento
do amor (ou do que acreditavam ser amor), os desejos carnais, o prazer
de estar um com o outro fazem com que os amantes não enxerguem
as diferenças que há em suas vidas e a impossibilidade
de juntá-las. Eles não pertencem ao mesmo mundo e a
vontade de unir um mundo ao outro é um erro dos mais extravagantes.
Os dois decidem fugir, sendo preciso, para isso, assassinar a esposa
do fazendeiro. Já na cena de abertura, no pântano, quando
os dois se encontram para tramar o homicídio, o protagonista
atravessa o lamaçal entre névoas e brumas decidido a
assassinar a esposa, como quem sai do plano real para ingressar num
mundo difuso, numa das cenas que também é um dos tantos
exemplos da extraordinária maestria dos movimentos de câmera
do filme. Aliás, durante o filme inteiro as imagens nos dão
a impressão de que tudo nos é mostrado com uma câmera
meio que flutuante, diria quase sobrenatural. Um outro grande momento
é quando o homem beija e mergulha em carícias com a
mulher da cidade enquanto a cena é intercalada com imagens
da esposa chorando ao lado do filho.
Cabe ao desenrolar dos acontecimentos devolver ao
protagonista as noções de vida real que havia perdido.
Ao se afastar da amante para voltar a sua esposa para matá-la,
ele ao reencontrá-la adquire, subitamente, uma tomada de consciência,
um sentimento de pena pela mulher que ele julgava não amar
mais. A possibilidade de perder sua companheira faz com que ele reflita
sobre abrir mão da solidez de sua existência para embarcar
numa experiência que, no final das contas, poderia ser das mais
efêmeras. Não vale a pena sacrificar a mulher com quem
sempre viveu, e mais ainda, a vida que lhe era conhecida, na incerteza
de reescrever o seu destino. Mais sendo levado pelo que planejara
do que propriamente pelo que desejava nesse instante, ele tenta assassiná-la,
mas não consegue. A esposa indignada, reconhecendo no homem
a sua frente (não o antigo marido, mas um estranho) quer sair
dali e decide ir até a cidade. Desejando reconquista-la e completamente
arrependido pelo que tramara, ele a acompanha. A viagem de bonde que
leva o casal do campo para a cidade é outro arroubo técnico
fabuloso. Com o uso de fusões e sobreposições
para descrever as mudanças das paisagens exteriores, nos permitem
enxergar a cidade com os olhos do casal, tudo nos parecendo tão
grande e novo como o era para eles. As preocupações
de Murnau com as qualidades técnicas fizeram com que ele alcançasse
resultados muito próximos da perfeição. O restante
da história é sobre a tentativa do marido em se reconciliar
definitivamente com a esposa, e mais do que isso, reencontrar sua
identidade perdida, o homem que deixara de ser por causa dos devaneios
e ilusões de uma paixão fugaz e inconseqüente.
François Truffaut dizia que esse é o filme mais belo
do mundo e que ninguém poderia pensar em ser cineasta sem assisti-lo
antes. Murnau pretendeu fazer desse filme uma espécie de canção,
daí o subtítulo original de “A Song Of Two
Humans”. A propósito, feito nos últimos suspiros
do cinema mudo, Aurora utiliza um sistema de sonorização
chamado Movietone, no qual o som era gravado diretamente no negativo.
Com isso, o filme não precisava ter acompanhamento musical
ao vivo. Aurora estreou semanas antes do primeiro filme falado, O
Cantor de Jazz (que utilizava o processo Vitaphone, onde
o som era gravado em enormes discos de cera), mas se reparamos na
cena em que os protagonistas estão obstruindo a rua ao se beijarem,
além de escutar efeitos sonoros de praxe, você poderá
escutar, o que poderá ser considerado umas das primeiras palavras
faladas no cinema ("Get out of There ou Get out of Way").
O DVD lançado por aqui pela distribuidora
Versátil está muito bom. O filme tem granulações
e defeitos aparentes no negativo, mas isso é compreensível
por se tratar de um filme com oitenta anos. Ainda assim, o trabalho
de restauração das imagens foi fantástico. O
áudio está muito bom e claro, a transferência
do DVD respeitou o formato original de cinema e não existem
artefatos de compressão visíveis. Como extras, existe
uma coleção de cenas alternativas, que haviam sido guardadas
pelo editor do filme (Harold D. Schuster) e no início de cada
cena tem um entretítulo que informa alguns curiosidades da
cena e da produção. O DVD também dispõe
de fotos dos bastidores e um curioso trailer original de cinema, e
como é comum na maioria dos títulos lançados
pela Versátil, a vida e obra do diretor em forma de texto.
A lamentar o fato de que a edição nacional cortou alguns
extras da edição americana, como o filme perdido de
Murnau , Four Devils, o roteiro de Aurora e Four
Devils e os comentários em áudio. Uma pena,
mas o DVD está tão bom que a gente até releva.
Depois de Aurora, Murnau não teve mais a mesma
carta branca nos estúdios e teve que ceder às pressões
comerciais e realizar duas obras comerciais que lhe foram impostas:
o já citado Four Devils e City Girl.
Para fugir de Hollywood, Murnau foi para o Taiti com o grande documentarista
Robert Flaherty (Nanook, Man of Aran)
para produzir e realizar Taboo. Os dois acabariam se desentendendo
depois de três dias de filmagens e, sozinho, Murnau fez a sua
obra-prima derradeira. Isso porque três dias antes da premiére
do filme, ele morreu em um desastre de automóvel. Na época
se falou em uma maldição do sacerdote do Taiti, contrariado
com certas cenas. Murnau tinha apenas quarenta e dois anos. Morria
consagrado como o maior cineasta do seu tempo, ao lado de Charles
Chaplin e Sergei Eisenstein.