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Bruno Barreto

Mariana Bomfim
mariana@armadilhapoetica.com

19/10/2008


Na última sexta-feira (10/10/08) pude conferir com exclusividade o novo filme de Bruno Barreto, Última Parada 174, que estréia no circuito comercial apenas dia 24 de Outubro. Depois do filme, o público, formado exclusivamente por blogueiros, pôde conversar com o diretor também responsável pelos longas O Que É Isso, Companheiro? e O Casamento de Romeu e Julieta. Abaixo os melhores trechos deste bate-papo.

Você acha que retratar “favela-movie” é uma garantia de ter público para o filme ser exibido no exterior, como foi o caso de Cidade de Deus e Tropa de Elite?

Barreto: Na verdade o que ocorre é um retorno em prestígio e críticas, não há retorno financeiro. O filme que é blockbuster dentro do Brasil não dá retorno, lucro lá fora. E o caminho para entrar nesse mercado são os festivais. Última Parada 174 fala de um problema social profundo e o público e os jurados do festival já entram com o preconceito de esperar isso de um filme brasileiro. Se, por exemplo, você inscrever nos festivais internacionais uma comédia de costumes da classe média paulistana, o filme não entra. Mas um “favela-movie” sim. Mas, sinceramente, este é um filme diferente de Cidade de Deus e Tropa de Elite, pois ele está além da crítica social, o foco dele é o ser humano. Não acho que é um filme que aborde a vida na favela porque boa parte das cenas não se passa em uma. É mais um Charlie Dickens das ruas do Rio, um Caim e Abel carioca...

Então como você encara as críticas estrangeiras que já tacharam seu filme como “favela-movie”?

Barreto: Olha, uma coisa é fato. A mídia realmente simplificou o filme ao classificá-lo como “favela-movie” e ponto. Mas vou te falar, eu morei 20 anos nos Estados Unidos. E eu sei que eles têm essa cultura de rotular as coisas, eles botam na mesma bacia e não diferenciam as coisas. É como para nós assistirmos os melhores filmes deles sobre a guerra do Vietnã e vermos Platoon como apenas mais um deles. Desta forma o problema em distribuir o filme nos Estados Unidos fica maior, pois temos que a todo o momento insistir que não é mais um Cidade de Deus ou um ‘doc-drama’. Um aspecto no roteiro que usamos para provar isso é o fato de que no meu filme não há o chamado ‘personagem-neutro’. O Buscapé e o Capitão Nascimento não estão nem dentro nem fora do crime, estão em cima do muro. No 174 não há nenhum personagem assim...

A Trilha Sonora tem um peso muito grande no filme funcionando como uma psicologia de recepção no espectador. Como foi o processo de concepção dela?

Barreto: Confesso que foi o aspecto mais trabalhoso do filme justamente porque eu não queria que ela caísse no clichê do melodrama. Para destacar o aspecto humano do filme foquei muito na música, foi o filme em que eu mais gastei tempo com isso, tentando diminuí-la cada vez mais. O Marcelo (Zarvos – compositor da trilha) ficava me alertando para eu tomar cuidado em não ser minimalista e exato de mais, para não usar o minimalismo como rede de segurança. Mas acho que conseguimos acertar no ponto!

O filme faz um diálogo direto com o documentário Ônibus 174 do José Padilha. Até que ponto vocês inseriram seus fatos na narrativa ficcional de Última Parada 174?

Barreto: Desde o começo eu e o Bráulio (Mantovani – roteirista) concebemos o filme como ficção. Muitas situações não existiram de verdade, como o caso do irmão. Na verdade o que acontece quando vemos um documentário é que estamos altamente propensos a aceitar aquilo como verdade. Com isso a ficção sofre com a extrema necessidade de ser altamente verossímil. O que ocorreu foi que eu queria usar o evento no ônibus apenas como a catarse final, justificando toda a trama que se desenrola antes desse fato. Meu objetivo real era entrar na vida daquelas pessoas e entender o que levou esse menino a fazer aquilo. Um exemplo de como a estética do filme reflete essa proposta é a cena do seqüestro do ônibus. Tudo que é mostrado do lado de fora são takes de TV, e quando vemos dentro a imagem é de película. Fiz isso também para não transformar a violência daquela situação em show. Assim o filme não bombardeia a platéia com adrenalina. Ele tem trechos rápidos, mas faz pausas para o público refletir, pois eu queria que o espectador se detivesse na humanidade dos personagens e não na sua violência...

É que achei muito interessante que o filme apresenta certos detalhes em comum com o documentário...

Barreto: Sinceramente, não foi de maneira intencional. Eu e o Bráulio criamos uma curva dramática bem pontual e delimitada. A primeira cena tem aquela dramaticidade violenta, por exemplo, e que pode não ter existido na realidade, mas serve perfeitamente para o desenrolar da trama. E essas escolhas foram feitas com um porque, com uma causa para provocar determinado efeito. Assim tivemos que tomar certas licenças dos fatos, como o próprio Massacre da Candelária e certas coisas dentro do 174...

Então você estaria utilizando o seu filme como um explicativo humano e social para o que aconteceu com o ônibus?

Barreto: Não foi uma intenção forte. Ao ver o documentário ficou muito claro para mim que aquilo era uma seqüência de erros em que no seu resultado final todos perderam, tanto os envolvidos quanto a sociedade como um todo. Mas meu papel não é julgar as pessoas, é mostrar ao espectador algo em que ele possa fazer o seu julgamento particular em cima.

Gostaria que você comentasse um pouco dessa sua primeira experiência com o uso de não-atores em um longa.

Barreto: Na verdade eu não queria mesmo usar atores conhecidos, e confesso que achei um grande barato usar os não-atores. O que acontece hoje é que a vida particular dos artistas é tão conhecida através da mídia que você não consegue mais ver o ator entrando no personagem. Um exemplo é a celebridade Brad Pitt. Quando eu vejo um filme com ele demoro uns 40 minutos para esquecer que ele é casado com a Angelina Jolie, teve gêmeos, etc etc etc (risos). Bem, de qualquer forma, o grande desafio no Última Parada 174 foi equalizar a interpretação dos poucos atores profissionais que possuíam a técnica com aqueles profissionais sem ela. Para resolver isso, fizemos diversas oficinas em conjunto que deram um resultado excelente no vídeo.

Quando o filme recebeu a indicação de representante brasileiro no Oscar, ouvi comentários em uma rádio que isso ocorreu por conta de um lobby da família Barreto. O que você pensa disso e se você acha que o filme tem chances de ser de fato indicado entre os 5 da categoria Filme Estrangeiro.

Barreto: Olha, pelo que eu sei o comitê escolheu o filme que eles mais gostaram. Essa história de lobby da família Barreto é furada. Meus pais, coitados, estão lá velhinhos com 60, 70 anos. Para te mostrar as dificuldades que eu tive para financiar esse filme é só você ver os últimos editais de patrocínio audiovisual da Petrobrás e do BNDS. O Última Parada 174 foi negado 6 vezes por eles! Só consegui tocar o filme porque o Canal+, uma entidade francesa, entrou com 400 mil euros. Quanto a indicação ao Oscar, acho que o filme tem a possibilidade de ser escolhido pela Academia porque ele envolve o espectador. O Que É Isso, Companheiro? também possuía essa forte carga dramática e pessoal e foi indicado.

Você acha que a violência é um assunto mal resolvido pela sociedade brasileira?

Barreto: Não sei se é mal resolvido... A gente vive com ela dia-a-dia no Rio e em São Paulo. É um problema complicado, algo com complexidade. Olha pensando bem, não é um assunto mau resolvido porque não é resolvido! (risos)

Para encerrar, qual a cena do filme que você mais gosta?

Barreto: Gosto quando o Sandro finge que a Marisa é a sua mãe porque talvez ele precisasse mais de uma mãe que o verdadeiro filho dela...



Concorra a pares de ingressos!

O blog MovieYou, administrado por Mariana Bomfim, em uma parceria com a Rede Brazucah leva você para conferir o novo filme do cineasta brasileiro Bruno Barreto "Última Parada 174" que estréia dia 24 de Outubro nos cinemas de todo país. Para participar basta se inscrever e mandar uma frase respondendo a pergunta: “Qual seria o seu destino ao embarcar no ônibus 174?” As 4 melhores frases ganham um par de ingressos para conferir o longa. Participe!


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