Na última sexta-feira (10/10/08) pude conferir com exclusividade
o novo filme de Bruno Barreto, Última Parada 174,
que estréia no circuito comercial apenas dia 24 de Outubro.
Depois do filme, o público, formado exclusivamente por blogueiros,
pôde conversar com o diretor também responsável
pelos longas O Que É Isso, Companheiro? e
O Casamento de Romeu e Julieta. Abaixo os melhores
trechos deste bate-papo.
Você acha que retratar “favela-movie”
é uma garantia de ter público para o filme ser exibido
no exterior, como foi o caso de Cidade de Deus e Tropa de Elite?
Barreto: Na verdade o que ocorre
é um retorno em prestígio e críticas, não
há retorno financeiro. O filme que é blockbuster dentro
do Brasil não dá retorno, lucro lá fora. E o
caminho para entrar nesse mercado são os festivais. Última
Parada 174 fala de um problema social profundo e o público
e os jurados do festival já entram com o preconceito de esperar
isso de um filme brasileiro. Se, por exemplo, você inscrever
nos festivais internacionais uma comédia de costumes da classe
média paulistana, o filme não entra. Mas um “favela-movie”
sim. Mas, sinceramente, este é um filme diferente de Cidade
de Deus e Tropa de Elite, pois ele está
além da crítica social, o foco dele é o ser humano.
Não acho que é um filme que aborde a vida na favela
porque boa parte das cenas não se passa em uma. É mais
um Charlie Dickens das ruas do Rio, um Caim e Abel carioca...
Então como você encara as críticas
estrangeiras que já tacharam seu filme como “favela-movie”?
Barreto: Olha, uma coisa é
fato. A mídia realmente simplificou o filme ao classificá-lo
como “favela-movie” e ponto. Mas vou te falar, eu morei
20 anos nos Estados Unidos. E eu sei que eles têm essa cultura
de rotular as coisas, eles botam na mesma bacia e não diferenciam
as coisas. É como para nós assistirmos os melhores filmes
deles sobre a guerra do Vietnã e vermos Platoon
como apenas mais um deles. Desta forma o problema em distribuir o
filme nos Estados Unidos fica maior, pois temos que a todo o momento
insistir que não é mais um Cidade de Deus ou um ‘doc-drama’.
Um aspecto no roteiro que usamos para provar isso é o fato
de que no meu filme não há o chamado ‘personagem-neutro’.
O Buscapé e o Capitão Nascimento não
estão nem dentro nem fora do crime, estão em cima do
muro. No 174 não há nenhum personagem assim...
A Trilha Sonora tem um peso muito grande
no filme funcionando como uma psicologia de recepção
no espectador. Como foi o processo de concepção dela?
Barreto: Confesso que foi o aspecto
mais trabalhoso do filme justamente porque eu não queria que
ela caísse no clichê do melodrama. Para destacar o aspecto
humano do filme foquei muito na música, foi o filme em que
eu mais gastei tempo com isso, tentando diminuí-la cada vez
mais. O Marcelo (Zarvos – compositor da trilha)
ficava me alertando para eu tomar cuidado em não ser minimalista
e exato de mais, para não usar o minimalismo como rede de segurança.
Mas acho que conseguimos acertar no ponto!
O
filme faz um diálogo direto com o documentário Ônibus
174 do José Padilha. Até que ponto vocês inseriram
seus fatos na narrativa ficcional de Última Parada 174?
Barreto: Desde o começo
eu e o Bráulio (Mantovani – roteirista)
concebemos o filme como ficção. Muitas situações
não existiram de verdade, como o caso do irmão. Na verdade
o que acontece quando vemos um documentário é que estamos
altamente propensos a aceitar aquilo como verdade. Com isso a ficção
sofre com a extrema necessidade de ser altamente verossímil.
O que ocorreu foi que eu queria usar o evento no ônibus apenas
como a catarse final, justificando toda a trama que se desenrola antes
desse fato. Meu objetivo real era entrar na vida daquelas pessoas
e entender o que levou esse menino a fazer aquilo. Um exemplo de como
a estética do filme reflete essa proposta é a cena do
seqüestro do ônibus. Tudo que é mostrado do lado
de fora são takes de TV, e quando vemos dentro a imagem é
de película. Fiz isso também para não transformar
a violência daquela situação em show. Assim o
filme não bombardeia a platéia com adrenalina. Ele tem
trechos rápidos, mas faz pausas para o público refletir,
pois eu queria que o espectador se detivesse na humanidade dos personagens
e não na sua violência...
É que achei muito interessante que
o filme apresenta certos detalhes em comum com o documentário...
Barreto: Sinceramente, não
foi de maneira intencional. Eu e o Bráulio criamos uma curva
dramática bem pontual e delimitada. A primeira cena tem aquela
dramaticidade violenta, por exemplo, e que pode não ter existido
na realidade, mas serve perfeitamente para o desenrolar da trama.
E essas escolhas foram feitas com um porque, com uma causa para provocar
determinado efeito. Assim tivemos que tomar certas licenças
dos fatos, como o próprio Massacre da Candelária e certas
coisas dentro do 174...
Então você estaria utilizando
o seu filme como um explicativo humano e social para o que aconteceu
com o ônibus?
Barreto: Não foi uma intenção
forte. Ao ver o documentário ficou muito claro para mim que
aquilo era uma seqüência de erros em que no seu resultado
final todos perderam, tanto os envolvidos quanto a sociedade como
um todo. Mas meu papel não é julgar as pessoas, é
mostrar ao espectador algo em que ele possa fazer o seu julgamento
particular em cima.
Gostaria
que você comentasse um pouco dessa sua primeira experiência
com o uso de não-atores em um longa.
Barreto: Na verdade eu não
queria mesmo usar atores conhecidos, e confesso que achei um grande
barato usar os não-atores. O que acontece hoje é que
a vida particular dos artistas é tão conhecida através
da mídia que você não consegue mais ver o ator
entrando no personagem. Um exemplo é a celebridade Brad
Pitt. Quando eu vejo um filme com ele demoro uns 40 minutos para
esquecer que ele é casado com a Angelina Jolie, teve
gêmeos, etc etc etc (risos). Bem, de qualquer forma, o grande
desafio no Última Parada 174 foi equalizar
a interpretação dos poucos atores profissionais que
possuíam a técnica com aqueles profissionais sem ela.
Para resolver isso, fizemos diversas oficinas em conjunto que deram
um resultado excelente no vídeo.
Quando o filme recebeu a indicação
de representante brasileiro no Oscar, ouvi comentários em uma
rádio que isso ocorreu por conta de um lobby da família
Barreto. O que você pensa disso e se você acha que o filme
tem chances de ser de fato indicado entre os 5 da categoria Filme
Estrangeiro.
Barreto: Olha, pelo que eu sei
o comitê escolheu o filme que eles mais gostaram. Essa história
de lobby da família Barreto é furada. Meus pais, coitados,
estão lá velhinhos com 60, 70 anos. Para te mostrar
as dificuldades que eu tive para financiar esse filme é só
você ver os últimos editais de patrocínio audiovisual
da Petrobrás e do BNDS. O Última Parada 174
foi negado 6 vezes por eles! Só consegui tocar o filme porque
o Canal+, uma entidade francesa, entrou com 400 mil euros.
Quanto a indicação ao Oscar, acho que o filme tem a
possibilidade de ser escolhido pela Academia porque ele envolve o
espectador. O Que É Isso, Companheiro? também
possuía essa forte carga dramática e pessoal e foi indicado.
Você acha que a violência é
um assunto mal resolvido pela sociedade brasileira?
Barreto: Não sei se é
mal resolvido... A gente vive com ela dia-a-dia no Rio e em São
Paulo. É um problema complicado, algo com complexidade. Olha
pensando bem, não é um assunto mau resolvido porque
não é resolvido! (risos)
Para encerrar, qual a cena do filme que você
mais gosta?
Barreto: Gosto quando o Sandro
finge que a Marisa é a sua mãe porque talvez ele precisasse
mais de uma mãe que o verdadeiro filho dela...
Concorra a pares de ingressos!
O blog MovieYou, administrado por Mariana Bomfim, em uma parceria com a Rede Brazucah leva você para conferir o novo filme do cineasta brasileiro Bruno Barreto "Última Parada 174" que estréia dia 24 de Outubro nos cinemas de todo país. Para participar basta se inscrever e mandar uma frase respondendo a pergunta: “Qual seria o seu destino ao embarcar no ônibus 174?” As 4 melhores frases ganham um par de ingressos para conferir o longa. Participe!